TOCA ENTREVISTA: Leandro Cizotto, economista, head de novos negócios da Rizoma Agro e estudioso da produção agrícola urbana em São Paulo
Sistema Agroflorestal com foco em citricultura na Fazenda da Toca

Leandro Cizotto.

Para escrever a reportagem sobre agricultura urbana, tivemos o apoio do economista Leandro Cizotto, Head de Novos Negócios na Rizoma Agro, nossa empresa-irmã, e um dos autores do estudo ‘Mais perto do que se imagina: os desafios da produção de alimentos na metrópole de São Paulo’.

Essa foi uma das matérias mais interessantes de escrever para a Revista da Toca porque abre a nossa visão para uma faceta pouco conhecida da região metropolitana: o potencial de produção agrícola e todas os benefícios ambientais, sociais e econômicos que essa atividade produtiva pode proporcionar.

É algo tão transformador que fica impossível não se tornar um entusiasta da causa. E Leandro fala disso com tanto entusiasmo e com um ponto de vista tão interessante que decidimos publicar na íntegra o conteúdo de sua entrevista para você ter um panorama ainda mais completo desse tema.

Confira abaixo:

1) Como você avalia o desenvolvimento da agricultura urbana na Região Metropolitana de São Paulo?

A agricultura urbana que hoje existe na região metropolitana é incrivelmente inspiradora. É o resultado de iniciativas corajosas que desafiam o senso comum sobre o uso do solo da cidade. O estudo nos mostra que é possível produzir, entre prédios e casas, ao lado de ruas e avenidas, alimentos frescos e em boa parte dos casos orgânicos. O resultado disso são cenas de encher os olhos, como uma horta muito biodiversa no meio de linhões de energia elétrica.


2) E quais são os principais obstáculos que essa modalidade produtiva enfrenta?

O que poderia ir a uma escala muito além dessas iniciativas desbravadoras esbarra em uma cadeia de suprimentos que foi se tornando cada vez mais obsoleta ao longo do tempo.

Quando compramos uma alface no supermercado, não temos ideia do que aconteceu para que ela chegasse às nossas mãos. Essa alface passou provavelmente por dois intermediários antes da gôndola. E, para cada dez iguais a ela, quatro foram perdidas ao longo do caminho. Se ela custou a nós cerca de R$ 3,50 o pé, o produtor recebeu, possivelmente, menos de R$ 0,70 por sua produção.

 


  

3) Em razão dessa estrutura, parece haver uma total desconexão entre o consumidor na cidade e o produtor no campo…

Pois é, não fazemos ideia de quem é esse produtor que cultiva o nosso alimento. Ele está muitas vezes a centenas de quilômetros de São Paulo e carrega uma enorme carga de desafios operacionais, climáticos e comerciais com cada vez menos capacidade de gestão e fôlego financeiro.

Existe uma série de impactos negativos dessas distorções: quase nenhuma das partes dessa cadeia se sustenta financeiramente, e o alimento chega com qualidade limitada e caro na mesa, sobretudo nas periferias onde se criam os chamados “desertos alimentares”. Agora, curiosamente, estas periferias estão muitas vezes relativamente mais próximas de relevantes áreas produtoras! Isso evidencia o quanto a cadeia ficou cega e disfuncional.

    


 

4) Esse estudo desvenda a realidade e as dificuldades vivenciadas pelo produtor agrícola. Como você descreve esse cenário?

O estudo mostra, do ponto de vista econômico-financeiro, os desafios enfrentados pelos diferentes perfis de produtores agrícolas da região. Primeiro, vemos um produtor convencional de hortaliças  hidropônicas de larga escala que, apesar de sua longa experiência no ramo e de sua alta eficiência em custos, está limitado à comercialização de seus produtos no atacado, de forma que não consegue se remunerar com o preço que recebe. É espantoso ver um agricultor como ele sendo deficitário!

Em seguida, vemos um produtor novo, cheio de energia e propósito para produzir orgânicos e que, apesar de muita energia e um esforço de pesquisa empírica, lida com conhecimento agrícola técnico incipiente, gestão agrícola ainda em amadurecimento e uma baixa consciência do desafio operacional e financeiro que enfrentará (e do tempo que perdurará). Esse é um caso comum de produtor pressionado a abandonar o negócio no curto/médio prazo

Na sequência, vemos dois casos inspiradores de produtores em áreas assentadas ou concedidas, que conseguem com suas famílias produzir orgânicos, vender em canais próximos (feiras, por exemplo) e se remunerar. Porém, se dividem entre produção, vendas e gestão – precisam fazer tudo e estar atentos 24 horas por dia, 7 dias por semana. Assim é a produção de hortaliças, não se pode descuidar nunca! Isso leva a uma rotina extenuante que, embora seja do agrado deles, dificilmente é do agrado de seus filhos. No longo prazo, portanto, mostra-se socialmente insustentável.

Sendo assim, os principais desafios são: (i) cadeia de comercialização – encurtar circuitos e fazer o dinheiro ir mais diretamente para o produtor; (ii) capacitação – aumentar o nível de preparo técnico e gerencial da rede de agricultores; e (iii) assistência – ajudar o produtor a tomar decisões melhores, não apenas para suas finanças, mas também para seu bem estar.

 


 

5) E quais são as oportunidades que você enxerga?

Como oportunidades, vemos um enorme espaço para um cooperativismo mais amplo e eficaz. Os agricultores, se unidos, são capazes de comprar melhor seus insumos, vender melhor seus produtos, ter acesso a melhores fontes de financiamento e compartilhar estruturas necessárias a todos como compostagem, máquinas agrícolas, viveiros de mudas e serviços de assistência técnica. É evidente que grande parte dos desafios individuais são muito mais transponíveis se abordados em conjunto.

Também vemos nisso uma enorme oportunidade para engajamento de outras partes nesse processo, como as redes varejistas, que poderiam fomentar diretamente cooperativas, e até mesmo consumidores finais, como no conceito da Community Supported Agriculture (CSA – em português “Comunidade que Suporta a Agricultura”) onde um grupo de consumidores se torna praticamente sócio do agricultor que os supre.

No estudo, mostramos através de casos simulados como a solução destes desafios e a exploração destas oportunidades podem levar a um retorno mais sustentável. Fica o convite aos leitores da revista para ler no estudo como cada uma dessas variáveis, se trabalhadas, podem nos levar a um modelo muito melhor [leia mais pelo link].

 


 

6) O estudo é bastante surpreendente ao apontar essa força produtiva agrícola em uma metrópole como SP. Essa revelação também foi nova para você?

Me surpreendeu muito. É muito natural pensarmos que uma cidade do porte de São Paulo só poderia ter a sua demanda de alimentos frescos suprida por um contingente de área produtiva imenso. Porém o estudo mostra que essa área é relativamente pequena se comparada, inclusive, aos padrões de área que trabalhamos nos cultivos que de alguma forma envolvem a Rizoma Agro e a Fazenda da Toca, por exemplo. Estamos falando de 60 mil hectares necessários para alimentar 20 milhões de pessoas com produtos de horticultura frescos – para termos como parâmetro, soja e milho compõem 40 milhões de hectares no Brasil, e a cana-de-açúcar compõe mais de 5 milhões só no nosso Estado!

 


  

7) O impacto ambiental positivo parece ser uma consequência direta da agricultura urbana. Como você relaciona a produção agrícola e a conservação ambiental na Região Metropolitana de São Paulo?

É muito importante trazer para essa conversa a dimensão ambiental. As áreas urbanas e periurbanas cumprem um papel vital de ser um agente viabilizador da proteção de mananciais, preservação de reservas legais e APPs e contenção do avanço da especulação imobiliária para próximo dos limites das florestas que circundam a cidade. Estas externalidades, aliadas à geração de emprego e renda local em áreas periféricas, geram um impacto socioambiental enorme.

  

 


 

8) Quando pensamos em uma metrópole como SP, o que vem à mente são prédios e concreto. Você acha que podemos criar um novo paradigma, como nas Transition Towns, de uma cidade mais sustentável e integrada à natureza?

Parece sempre muito complexo chegarmos a inserir uma metrópole tão densa e populosa como São Paulo em um conceito de Transition Towns. Porém o estudo traz uma boa dose de esperança quando mostra a dimensão do impacto da aproximação entre roça o consumidor.

Enxergo que temos um enorme espaço para fazer um uso sustentável de terrenos urbanos e, principalmente, periurbanos. É possível sim produzir nessas áreas, aqui perto de nós, com viabilidade operacional, comercial e econômica. E isso não é bom somente para o produtor, mas também para toda a comunidade.

 


 

9) Você pode indicar para os nossos leitores algum local de produção agrícola na RMSP que valha a pena visitar?

Embora eu pessoalmente não tenha visitado, acho incrível o trabalho que vem sendo feito pelo GAU (Grupo de Agricultoras Urbanas). Trata-se de um viveiro-escola em São Miguel Paulista, em um espaço dentro de um CDHU que outrora fora um entulho, onde um grupo de mulheres atuou na limpeza da área e instalou ali uma horta orgânica que utiliza vários dos conceitos de permacultura para produzir orgânicos, além de fornecer cursos e atividades que envolvem a comunidade local.

Essa e outras muitas iniciativas podem ser vistas no site Sampa Mais Rural, que permite ter de maneira muito visual uma dimensão da agricultura praticada na cidade e de casos inspiradores como esse.

 

 


 

10) Por fim, esse estudo mudou sua visão de futuro sobre São Paulo?

O estudo me permitiu sonhar com um futuro em que será plenamente possível conhecer a fazenda que produziu as hortaliças e também conversar diretamente com o agricultor, visitar a sua propriedade e entender como aqueles alimentos nascem, crescem e são colhidos. E que isso será a base para que aquele agricultor seja mais reconhecido, mais bem remunerado, mais bem capacitado e mais consciente da responsabilidade da sua atuação, bem como para que tenhamos alimentos frescos de maneira mais democrática.

  


 

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