Sistema Agroflorestal com foco em citricultura na Fazenda da Toca

[Uma pequena digressão]

 

“Eu proponho uma nova trindade. E no topo desta trindade está o solo, que representa toda a vida natural. Nós viemos da terra, viemos do solo. É ele que nos alimenta, nos mantém vivos e cuida de nós. Sem ele não há vida. O solo representa a vida na Terra”. O grande pensador e ativista ambiental Satish Kumar expressa nessas palavras a ideia de uma nova era de regeneração do planeta.

Como ele lembra, alguns dos mais importantes movimentos históricos da humanidade foram representados por três palavras que traduzem seu espírito. Na Revolução Francesa, por exemplo, a expressão máxima era “Igualdade, Liberdade e Fraternidade”. Na Declaração de Independência dos Estados Unidos, ficou cunhada a ideia de “Vida, Liberdade e Busca da Felicidade”.

“Solo, Alma e Sociedade” é a nova trindade proposta Satish Kumar e que virou título de um de seus mais importantes livros e um dos preferidos em nossa biblioteca.

Como todo o nosso princípio produtivo e manejo agrícola priorizam justamente a regeneração da terra, essa referência tem para nós um significado especial. E, por isso, com essa pequena digressão, abrimos esta reportagem sobre os solos agroflorestais que estamos criando na Fazenda da Toca.

Agroflorestas à luz da ciência

Os Sistemas Agroflorestais (SAFs) são modelos de produção milenares, desenvolvidos mundialmente, e vêm ganhando cada vez mais credibilidade como um paradigma produtivo capaz de endereçar alguns dos principais problemas socioambientais da atualidade, como a diminuição de fertilidade dos solos em todo o mundo, o aquecimento global e a perda de biodiversidade.

Nesse contexto, são objeto de crescente atenção da comunidade científica e ganham impulso com novas pesquisas, métodos e processos que a ciência proporciona. Como um fértil campo de estudo, os SAFs mostram agora, à luz da ciência, todo o seu potencial.

Um de seus méritos é devolver a qualidade do solo e sua capacidade de funcionar como um ecossistema vivo que sustenta as plantas, os animais e os seres-humanos.

E é para agregar na compreensão dessa dinâmica e fortalecer o conhecimento científico no campo das agroflorestas que o biólogo Vagner Roberto Ariedi Junior dedica seu projeto de pesquisa aqui na Fazenda. Ele é doutorando em Engenharia Agrícola, na área de concentração em água e solos, da Faculdade de Engenharia Agrícola (FEAGRI) da UNICAMP, bolsista Capes (Proc. n. 88882.434696./2019-01), sob a orientação do Prof. Dr. Zigomar Menezes de Souza.

Vagner Roberto Ariedi Junior, doutorando pela UNICAMP

Em conversa com a Revista da Toca, Vagner falou sobre a sua linha de investigação e dividiu conosco alguns achados.

“Nas agroflorestas, as intervenções no solo são mínimas e pontuais, o que preserva as características físicas, químicas e biológicas, não interferindo em sua dinâmica e conferindo estabilidade ao sistema. A superfície está sempre coberta com estrato herbáceo, arbustivo e arbóreo e há o constante aporte de biomassa, quer seja natural (queda de folhas, galhos, frutos), quer seja intencional (proveniente de capim roçado, podas e desbaste de árvores), aumentando os teores de matéria orgânica, nutrientes e favorecendo a vida no solo. Esse é um modelo agrícola que preconiza e promove a dinâmica natural, a estabilidade, e a biodiversidade”, diz Vagner.

Mas antes de prosseguir, vale ter em mente o que é o solo, tecnicamente falando.

É um ecossistema complexo constituído pela associação de diversos elementos: água, minerais, gases, seres vivos e matéria orgânica, que formam uma matriz tridimensional. O solo está localizado na interface entre a atmosfera e a litosfera, fato que lhe confere características únicas (KORASAKI et al., 2013).

Minhocas, Besouros, Formigas, Aranhas e outros bichos

Sabe aquela sensação boa que dá ao pegar na mão um punhado de solo vivo? Seu frescor, o aroma agradável, a textura fofa, tudo rescende a saúde e vida. E quanta vida!  Estima-se que em apenas uma colher de chá de solo sadio há 9 bilhões de organismos, mais do que que toda a população humana na Terra.

É isso que faz o solo ser o ecossistema mais complexo do mundo, como diz Jeff Tkach, do Rodale Institute, renomada instituição de fomento e pesquisa sobre a produção orgânica. De tão complexo, ainda guarda muitos mistérios. Acredita-se que conhecemos apenas 10% dessa fascinante teia de vida sob nossos pés. O restante ainda resta como um grande enigma.

É assim, complexo, cheio de vida e saudável que queremos o nosso solo!

Dessa infinidade de organismos que nele habitam, muitos são invisíveis, como fungos, bactérias e nematóides. Mas outros nós já conhecemos de vista, como minhocas, formigas, tatuzinhos, aranhas, centopéias, lacraias, escorpiões, grilos, besouros, cupins, tesourinhas, cigarras, percevejos. São esses invertebrados que compõem a chamada macrofauna do solo. 

Depois de entender em mais detalhes o papel que desempenham, você irá vê-los com outros olhos. “O fato é que eles atuam como verdadeiros engenheiros dos solos e dos ecossistemas. Seu trabalho é essencial para manter a saúde e equilíbrio do solo e das culturas”, afirma Vagner.

Embora ainda não esteja concluída, a pesquisa conduzida por ele indica que os SAFs tendem a alterar positivamente os atributos físicos, químicos e, e em especial, a comunidade de macrofauna edáfica (presente no solo). Essa hipótese é corroborada por outras literaturas e estudos científicos, assim como também pelos dados obtidos até o momento.

O objetivo principal do projeto de doutorado de Vagner é avaliar se o Sistema Agroflorestal (SAF) estudado apresenta melhores resultados nos atributos físicos e químicos do solo, na comunidade de macrofauna edáfica e na oferta e prestação de serviços ecossistêmicos, quando comparado aos outros usos e manejos (um sistema de integração-lavoura-pecuária-floresta, uma área de pastagem e um fragmento florestal em processo de regeneração natural) presentes na sua área de estudo dentro da Fazenda da Toca.

Na terra marrom escura, quase preta dos nossos SAF, os invertebrados são vistos como alguns de nossos principais aliados e são sempre preservados. Vagner nos ajuda a entender como operam e qual a importância que têm. Eles fazem parte do que chamamos de “fatores gratuitos da natureza”.

Ao contribuir para a decomposição da matéria orgânica, ciclagem de nutrientes e controle biológico, trabalham em favor do sistema. E, como costumamos dizer por aqui, quando compreendemos a dinâmica da natureza e seguimos seu fluxo –em vez de buscar dominá-la–, colhemos muitos benefícios.

Os engenheiros do solo

Os invertebrados do solo, cujo tamanho corporal é superior a 2mm de diâmetro e 10mm de comprimento, constituem a macrofauna edáfica, apresentando grande diversidade de organismos, os quais são responsáveis por diversas atividades de acordo com suas características, formas e modos de vida.

A macrofauna edáfica participa ativamente dos processos ocorridos no solo, reflete as diferenças nas práticas e manejos adotados, evidencia processos de degradação, restauração, recuperação e alterações do solo agrícola e serve como bioindicador de alterações e modificações ecológicas nos agroecossistemas.

Com o auxílio de Vagner, explicamos resumidamente nesse infográfico o papel dessas pequenas criaturas.

A dominância de determinado grupo de organismos ou de determinadas espécies, como diz Vagner, só ocorre quando há desequilíbrio no ambiente, principalmente em agroecossistemas. A presença de poucos grupos (de invertebrados do solo) ou de poucas espécies indica que o ambiente não é favorável por não oferecer recursos necessários. Maior diversidade de organismos leva a uma menor dominância.

O segredo, portanto, para evitar que espécies da macrofauna se constituam em pragas é garantir um ambiente agrícola diversificado (policultura, consórcios, sistemas de integração, Sistemas Agroflorestais), equilibrado e estável, sem uso de agrotóxicos. É fundamental respeitar a aptidão do solo para as culturas e realizar um manejo muito atento e adequado às condições particulares de cada sistema de produção e da vida no solo.

“ A diversidade é a chave do equilíbrio, ela proporciona o controle natural de pragas, pois abriga tanto predadores, quanto presas, no mesmo local, pela oferta de recursos diversos, microambientes diversos, nichos diversos.”

A regeneração dos solos

De acordo com a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura), o planeta já perdeu 33% de seu solo fértil devido a práticas produtivas insustentáveis, como a agropecuária intensiva. No Brasil, as estatísticas variam, mas o Ministério do Meio Ambiente chegou a divulgar que há 140 milhões de hectares de terras degradadas.

Em vista desse preocupante e acelerado processo de perda de fertilidade que compromete a produção de alimentos no futuro, a adoção de práticas agrícolas que visem a regeneração do solo se faz urgente.

Os sistemas agroflorestais são apontados como um exemplo conservacionista de cultivo e vêm ganhando cada vez mais credibilidade como um modelo capaz de produzir alimentos com alta eficiência e atender princípios como a melhoria da qualidade do solo, o controle da erosão, a promoção de biodiversidade, o aumento do teor de matéria orgânica e o melhor aproveitamento das chuvas.

Nesse sentido, a ciência é uma forte aliada para proporcionar um entendimento bem embasado sobre os processos naturais e apontar caminhos para adotarmos sistemas agrícolas mais sustentáveis e conservacionistas.

Por isso, gostaríamos de terminar esse texto com um agradecimento ao Vagner Roberto Ariedi Junior, ao Prof. Dr. Zigomar Menezes de Souza à Unicamp, à CAPES e a toda a comunidade científica que se dedica fundamentar, fomentar e difundir conhecimento sobre a agricultura conservacionista e regenerativa.

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