Novos passos em direção a uma mudança de paradigma na citricultura

Área da Rizoma Agro onde é realizada pesquisa sobre sombreamento na citricultura

 

 

Você já tomou suco de laranja, tangerina ou limão agroflorestal? Provavelmente não porque, em escala comercial, essas culturas são produzidas em sistemas convencionais ou em monocultivo. Mas uma das missões da Rizoma Agro, empresa irmã da Toca e também fundada por Pedro Paulo Diniz, é quebrar esse paradigma e desenvolver modelos agrícolas regenerativos orgânicos em larga escala.

A citricultura é uma das prioridades, dada a sua importância comercial e a vocação do Brasil para esse cultivo. O país é o segundo maior produtor mundial de cítricos, com cerca de 19 milhões de toneladas produzidas anualmente, ficando atrás apenas da China.

E, se formos considerar somente a laranja, somos o maior produtor mundial e exportador do seu suco, com uma fatia de 55% do mercado internacional.

A Fazenda da Toca, no interior de São Paulo, situa-se no chamado cinturão da citricultura, uma região que se estende do Paraná a Sergipe, passando por Minas, Bahia e São Paulo, Estado com o maior volume de produção. É aqui na Toca que a Rizoma desenvolve e opera seus sistemas agroflorestais (SAFs) e é aqui que promove uma série de pesquisas científicas para embasar um novo paradigma produtivo.

Para podermos tomar nosso suco agroflorestal, há muitas etapas a serem cumpridas, especialmente no campo da agronomia. Uma delas é justamente a compreensão do comportamento das diferentes espécies nos SAFs. E, para garantir esse entendimento, a Rizoma Agro vem estudando e modelando sistemas complexos há anos em estreita parceria com a comunidade científica.

Há uma série de pesquisas em curso delineadas pela Rizoma em conjunto com instituições acadêmicas, com o objetivo de fomentar conhecimentos sobre agroflorestas.

“A nossa área de Pesquisa & Desenvolvimento funciona como um grande laboratório com uma perspectiva multidisciplinar para estudar os sistemas agroflorestais em toda a sua complexidade”, diz Osvaldo Viu Serrano Jr (Juca), Diretor Técnico da Rizoma Agro.

Com amplo investimento em P&D ao longo dos anos, a Rizoma busca extrair novos aprendizados a partir da inteligência da natureza para chegar a um denominador comum de sistemas resilientes, saudáveis e, sobretudo rentáveis, com uma relação entre produtividade e custo que remunere o produtor e incentive novos investimentos.

Na edição passada, mostramos um projeto investigativo relacionado à macrofauna edáfica (Os Engenheiros do Solo), animais como minhocas, insetos e aracnídeos que desempenham um papel fundamental na disponibilização de matéria orgânica.

Neste número, queremos falar de um estudo em andamento sobre os consórcios agroflorestais de citros em diferentes níveis de sombreamento, espaçamento e combinação de espécies, fatores fundamentais para o êxito de uma agrofloresta.

Esses experimentos são uma parte do todo, e a Rizoma está investindo na análise de muitos outros aspectos e sempre aberta a novas experimentações neste tema.

“A agricultura provê informações em tempo real àqueles que acompanham o dia a dia da operação com olhar crítico, mas é muito importante validar hipóteses através de esforços a nível acadêmico, que conferem maior garantia do que se está prestes a concluir”, comenta Ana Clara Rocha, que atua na linha de frente das pesquisas desenvolvidas pela Rizoma Agro.

A pesquisa sobre a qual nos debruçamos agora é conduzida pela engenheira agrônoma Leila Pires Bezerra, doutoranda pela Faculdade de Engenharia Agrícola da Unicamp, bolsista CNPq (Proc. n. 149540/2018-3) sob orientação do Prof. Dr. Zigomar Menezes de Souza.

 

Por um melhor habitat para os cítricos

Os cítricos se originam na Ásia e são plantas de extrato médio, ou seja, no estado natural, florescem e se desenvolvem em meio a ambientes sombreados por outras árvores.

Mas depois de tantas décadas cultivadas em pomares monoculturais e a pleno sol, é preciso resgatar o entendimento da sua dinâmica natural. Como os diferentes níveis de sombreamento dos citros influenciam na qualidade do solo, no desenvolvimento vegetativo das plantas, na produtividade de diferentes variedades e na qualidade dos frutos?

Essas são algumas questões sobre as quais a Rizoma Agro em parceria com a Unicamp vêm se debruçando desde 2018 aqui na Fazenda da Toca. A doutoranda Leila dividiu conosco algumas de suas hipóteses até agora em sua linha de pesquisa.

“Já há algumas tendências para algumas espécies sobre a maior resiliência e sanidade dos citros em sistemas agroflorestais, inclusive com rendimentos similares ou até superiores em relação às monoculturas a pleno sol”, afirma Leila.

Leila Pires, doutoranda pela UNICAMP

Agora ela está estudando qual seria o desenho ideal para garantir a melhor ambiência e para alcançar o potencial máximo das plantas.

Para entender o seu estudo, é preciso ter clareza de um conceito fundamental das agroflorestas: a estratificação. No estado natural, cada planta tem uma necessidade específica de luz solar. E é de acordo com essa necessidade que elas se organizam nas florestas. O estrato é a camada vertical que ocupam, ou seja, a relação das plantas com o espaço. Aquelas que necessitam de mais luz se posicionam nos estratos altos e emergentes. E as que preferem menos insolação se acomodam nos extratos inferiores, onde a luz solar é filtrada pela sombra projetada pelas companheiras.

Como dissemos, os citros, naturalmente, estão em camadas intermediárias. E devolvê-los em ambientes o mais próximo possível do seu habitat natural traz muitas vantagens na transição a um modelo de citricultura mais ecológico e capaz de interagir positivamente com o ambiente e suas diversas ferramentas –como a microbiologia e os inimigos naturais, por exemplo.

“Usualmente, a cultura dos citros é realizada em monocultivo e a pleno sol. A falta de biodiversidade desses agroecossistemas gera desequilíbrio ambiental e, com isso, há um aumento na incidência de insetos e doenças”, aponta Leila. De acordo com ela, o citros é a terceira cultura com a maior quantidade média de litros de agrotóxicos por hectare, conforme aponta o estudo “Distribuição espacial do uso de agrotóxicos no Brasil: uma ferramenta para a vigilância em saúde”, de Marta Gislene Pignatti. O levantamento aponta que a citricultura recebeu em média 23 litros por hectares, em 2015, ficando atrás apenas do fumo (60 L/ha) e do algodão (28 L/ha).

E o que está em desenvolvimento na Rizoma Agro é justamente a proposição de um modelo de desenvolvimento rural pautado pela regeneração ambiental, com uma forma de manejo e gestão dos agroecossistemas verdadeiramente sustentável.

Sombra e equilíbrio

Para compreender qual é o nível ideal de sombreamento dos citros em sistema agroflorestal, a pesquisa estabeleceu quatro tratamentos para oito variedades de citros: Limão Siciliano, Limão-cravo, Limão Caviar, Tangerina Cravo, Tangerina Murcote, Mexerica do Rio, Laranja Valência Americana e Laranja Rubi.

Em uma área de aproximadamente 8,5 hectares, os talhões foram divididos da seguinte maneira:

T1 – Citros sem sombreamento
T2 – SAF Citros com sombreamento a 60%
T3 – SAF Citros com sombreamento a 80%
T4 – SAF Citros com sombreamento 100%

As espécies consorciadas são madeiráveis nativas da Mata Atlântica, como Ipê Felpudo, Louro Pardo, Peroba Rosa e Jequitibá Rosa, além de espécies de serviço, ou geradoras de biomassa, como Eritrina, Ingá, Farinha Seca, Gliricídia e Eucalipto. Além da alta biodiversidade, seu desenho chama a atenção e é apreciado pela quantidade de espécies nativas. De todas essas, apenas o Eucalipto e a Gliricídia são exóticos.

Essas árvores de estrato superior proporcionam diversos benefícios, como a fixação de nitrogênio no solo (disponibilizando melhor nutrição para as plantas), ciclagem de nutrientes e proteção contra o estresse climático. Há diversos indícios de que o sombreamento aumenta a longevidade do citros, que assim mantém alta produtividade por um longo período de tempo.

Apesar de inequívocas evidências das vantagens econômicas e ecológicas da agrossilvicultura, essa modalidade produtiva ainda é pouco praticada. E uma das razões é a carência de conhecimento científico, considerando que “somente o que é medido e demonstrado é reconhecido”, como diz Leila. “Existem poucas pesquisas com sombreamento natural de citros em sistemas agroflorestais, no Brasil e no mundo, que demonstrem a produtividade de diferentes variedades cítricas nestas condições. Os poucos estudos existentes se referem mais ao sombreamento artificial com telas. Por isso essa pesquisa é inovadora e trará uma contribuição importante para a citricultura em bases mais sustentáveis”

Ainda há bastante tempo de observação e estudo, uma vez que a sua pesquisa de doutorado será concluída em 2022, mas já é possível apontar algumas hipóteses.

“As informações até agora sugerem que o sombreamento de 80% leva a um maior crescimento das plantas cítricas, mas esses dados ainda são preliminares e, portanto, não conclusivos. Os pomares agroflorestais já começaram a frutificar, mas somente no ano que vem teremos uma safra mais significativa para análise da produtividade em cada tratamento”, diz Leila.

A pesquisa avaliará também a qualidade do solo relacionada a atributos físicos e químicos, apontando em qual tratamento houve maior incremento de matéria orgânica e carbono, além de examinar o índice de porosidade, densidade e teor de água no solo. A qualidade dos frutos também será estudada de forma a compreender o efeito do sombreamento no tamanho e cor dos frutos, assim como níveis de açúcares e outras propriedades.

Experimentos como esse buscam cobrir as lacunas técnicas e científicas das agroflorestas, daí a sua relevância para consolidar um novo paradigma na agricultura, mais saudável para o planeta. Por isso, encerramos este artigo com um agradecimento especial à Leila, ao Prof Dr. Zigomar, à Unicamp e a todas as instituições acadêmicas e estudiosos que estão empenhados em contribuir para uma nova era de regeneração. Sem dúvida, esses esforços representam um salto de conhecimento que ajudam a colocar as agroflorestas em um patamar elevado de credibilidade e reconhecimento.

 À medida que os resultados dessa e de outras pesquisas em andamento passarem por todas as provas e avaliações necessárias e se mostrarem conclusivos, serão divulgados pela Rizoma Agro como uma forma de compartilhar aprendizados e contribuir para o desenvolvimento da agricultura regenerativa orgânica.

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