Sistema Agroflorestal com foco em citricultura na Fazenda da Toca

O que você percebe quando anda no meio de uma mata ou floresta? Sem dúvida, o frescor, a umidade, o cheiro de solo vivo, infinitos tons de verde, a diversidade de espécies, pássaros, uma vida em abundância. Isso tudo é evidente, está na nossa cara.

Mas há também uma complexa e intrincada rede de comunicação e cooperação entre as plantas, imperceptível para nós, porém fundamental para manter os sistemas florestais vivos e sadios.

Quando estudamos um pouco sobre isso, nos surpreendemos ainda mais com a força e a inteligência da natureza. E depois de ler esse texto, suas trilhas e passeios pela mata nunca mais serão os mesmos! Ficarão ainda mais interessantes e intrigantes se você parar para pensar na Vida Secreta das Árvores.

Esse é o título de um livro do alemão Peter Wohlleben que fala dessa face invisível das florestas. Já é um consenso na comunidade científica que as espécies vegetais se comunicam. E entender como se dá essa comunicação abre uma nova perspectiva e nos possibilita um outro olhar.

É no subterrâneo que acontece uma parte importante dessa ligação entre as plantas. Os fungos que habitam o solo são formados de um emaranhado de pequenos filamentos conhecidos como micélio. São eles que ajudam a conectar diferentes plantas.

O cientista e especialista em fungos Paul Stamets, dos Estados Unidos, cunhou o termo “internet natural” para se referir a esse sistema de comunicação que conecta plantas muito distantes entre si.

Essa comunicação é um mecanismo de sobrevivência das florestas e serve para trocar nutrientes, cooperar umas com as outras, emitir alertas de perigo, formar uma comunidade e ter relações. Por isso, para Wohlleben, as árvores são “seres sociais”.

Algumas passagens do livro revelam comportamentos impressionantes das plantas para se defenderem. Uma boa história que ilustra esse fenômeno é a das acácias e das girafas.

“Há cerca de 40 anos cientistas notaram algo interessante na savana da África. As girafas comem a folhagem da Acacia tortilis, uma espécie de acácia que não gosta nem um pouco disso. Para se livrar dos herbívoros, poucos minutos depois de as girafas aparecerem as acácias bombeiam toxinas para as folhas. As girafas sabem disso e partem para as árvores próximas. Mas não tão próximas: primeiro elas pulam vários exemplares e só voltam a comer depois de uns 100 metros. O motivo é surpreendente: as acácias atacadas exalam um gás de alerta (no caso, etileno) que sinaliza às outras ao redor que surgiu um perigo. Com isso, todos os indivíduos alertados se preparam de antemão e também liberam toxinas. As girafas conhecem a tática e por isso avançam savana adentro até encontrarem árvores desavisadas. Ou então trabalham contra o vento, já que é ele que carrega a mensagem aromática, buscando acácias que ainda não detectaram sua presença.”

 As árvores também têm uma estratégia especial para se defenderem individualmente e para defender o grupo de insetos agressores. Ao sofrer um ataque, por exemplo, o carvalho libera para as folhas o tanino, uma substância amarga. O salgueiro também tem esta capacidade de produzir uma toxina, no caso a salicina, que também tem um efeito adverso a certos tipos de pragas. 

E, além desse expediente, as árvores também emitem sinais de alerta umas às outras não só pelo ar (por meio de gases), mas também eletricamente, através das suas raízes, em uma velocidade de um centímetro por segundo, de acordo com os estudos. Quando a notícia do ataque se espalha, as espécies já armam o contra-ataque.

 Wohlleben diz que cada árvore é valiosa para a comunidade e deve ser mantida viva o máximo de tempo possível. Há assim uma espécie de espírito de cuidado e solidariedade que leva as plantas a um esforço de ajuda mútua e de troca de nutrientes.

 O autor fez uma observação muito curiosa a esse respeito. Um dia, passeando pelo campo, deparou-se com o que pensou, inicialmente, serem pedras cobertas de musgo.  Ao averiguar melhor, viu que não eram pedras e sim restos de tronco centenário e ancestral que já deveriam ter apodrecido no solo úmido. Mas, ao invés disso, estavam recobertos por uma camada verde, que só aparece quando há clorofila, presente nas folhas frescas e armazenada nos troncos vivos.

Mas como aquelas sobras ficaram vivas por tempo sem folhas para realizar a fotossíntese e sintetizar nutrientes por conta própria? A única explicação é que recebiam ajuda das vizinhas, que enviavam nutrientes através das raízes.

 Há também outra evidência muita clara de colaboração. Existe uma prática muito cruel e destrutiva que se chama ‘anelamento’. Consiste em retirar uma faixa de um metro da casca das árvores em todo o diâmetro do tronco. Essa “técnica” provoca a sua morte porque corta o canal de transporte de açucares das folhas para as raízes e de água até a copa, causando o completo ressecamento.

 Mas Wohlleben percebeu que apesar desse ataque brutal, muitas faias (espécies arbóreas) sobreviviam porque recebiam nutrientes de suas semelhantes, que assumiam, pela rede subterrânea, o fornecimento interrompido das raízes, possibilitando a sua sobrevivência.

 Esses são apenas alguns exemplos dos fenômenos existentes nas florestas. Abrir nossa percepção e aguçar a sensibilidade para compreendê-los nos conecta ainda mais fortemente com a natureza.

 Esse é um dos grandes méritos desse livro. É com descrições vivas como essas que A Vida Secreta das Árvores nos apresenta a um mundo desconhecido, mágico e fascinante da vida no planeta Terra.

 

 

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