O que mais me motiva é fazer bons negócios que regenerem o nosso planeta e consequentemente melhorem a vida de todos que vivem nele.

Há 10 anos nascia a Fazenda da Toca Orgânicos. A propriedade no interior de São Paulo, que já pertencia à família Diniz desde 1970 e se dedicava à produção convencional de laranja, estava prestes a passar por uma verdadeira transformação e se tornar um modelo de sustentabilidade para o Brasil e o mundo nas mãos de Pedro Paulo Diniz.

Ao regressar ao Brasil após encerrar a sua carreira no automobilismo, Pedro, que já tinha grande afinidade com temas como alimentação saudável, desenvolvimento sustentável e orgânicos, viu uma grande oportunidade de dar início na Fazenda a um projeto inovador no país: a produção de alimentos orgânicos em larga escala.

“O que mais me motiva hoje em dia é fazer bons negócios que regenerem o nosso planeta e consequentemente melhorem a vida de todos que vivem nele”, diz.

Com o passar dos anos, esse projeto evoluiu e hoje transcende as porteiras da Toca com o propósito de investir e desenvolver no Brasil modelos de agricultura regenerativa, que produzem alimentos saudáveis ao mesmo tempo em que regeneram o solo e a biodiversidade. No ano passado, Pedro fundou a Rizoma, uma empresa que busca mudar o paradigma da agricultura, promovendo uma produção altamente eficiente, produtiva e com grande potencial para melhorar os indicadores ambientais e contribuir para reverter o aquecimento global.

E para esse número de nossa Newsletter Fazenda da Toca, ninguém melhor do que ele para contar essa história. São 10 anos de Fazenda da Toca Orgânicos em 10 perguntas. Confira a seguir!


  1. Qual é o balanço que você faz desses 10 anos de projeto Fazenda da Toca Orgânicos?

Foi e continua sendo a melhor experiência da minha vida. Um período de grandes realizações e que me devolveu a esperança de viver em um planeta melhor e mais saudável. Há 10 anos eu me lancei em uma jornada de regeneração do planeta, em busca de um modelo de produção e consumo em harmonia com a natureza. E foi então que vi o potencial da agricultura para mudar essa rota de destruição e esgotamento dos recursos naturais para um caminho de regeneração do solo, biodiversidade e meio ambiente. Aí que me apaixonei pela agricultura, especialmente por esse modelo de agricultura regenerativa, que hoje me dá plena convicção de que é perfeitamente possível alimentar o mundo e causar impacto ambiental positivo. Essa é uma perspectiva muito animadora e que me motiva a investir dentro e fora da Fazenda da Toca.


  1. A Fazenda da Toca é um lugar que inspira muita gente que vem aqui conhecer e visitar as agroflorestas e a produção de ovos orgânicos, por exemplo. O que você considera mais inspirador na Fazenda?

Sempre digo que a Toca é muito mais do que uma propriedade de produção orgânica. Esse é um lugar para repensarmos a nossa relação com o planeta. E é isso que a torna tão inspiradora. Na Toca, nós demos início ao desenvolvimento de sistemas agroflorestais (SAFs), que são modelos agrícolas regenerativos. Também temos uma produção de ovos orgânicos admirável do ponto de vista do bem-estar animal e do respeito à natureza. Mas, além disso, a Toca é um lugar de difusão de conhecimento em regeneração. Isso, para mim, é uma das chaves para a transformação da realidade. Por isso, procuramos sempre compartilhar os nossos aprendizados e estimular mais produtores a fazerem o que fazemos. Somos uma empresa de matriz aberta e nossa missão é incentivar todos a produzirem de forma orgânica e regenerativa. Na Toca, nós promovemos visitas regulares e apoiamos diversos cursos em agricultura, alimentação e educação justamente para abrir o acesso ao conhecimento. Esse espírito de portas abertas, de cooperação e de compartilhamento de aprendizados de fato encanta muita gente e me encanta também.


  1. Voltando a falar de agricultura, que é uma grande paixão para você. Hoje a agricultura convencional é relacionada a vários problemas, como emissão de gases do efeito estufa, elevado consumo de água e recursos naturais, contaminação do solo… Em poucas palavras, como é possível desenvolver uma agricultura benéfica para o meio ambiente?

Se queremos continuar vivendo nesse planeta, precisamos de sistemas que regenerem. Ao longo desses anos de projeto Toca, tenho hoje a certeza de que é possível fazer uma agricultura extremamente eficiente regenerando a natureza. E é esse o modelo que estamos desenvolvendo na Toca e na Rizoma, empresa que lançamos no ano passado com o objetivo de investir em agricultura regenerativa em diversas regiões do país. Para colocar de pé esse modelo, a nossa maior fonte de inspiração é a própria natureza, os seus ciclos, a sua dinâmica e como ela opera. Com esse entendimento, que nós estamos transformando em uma nova ciência agrícola, percebemos que é possível alcançar resultados surpreendentes de produtividade e de regeneração. Em vez de lutar contra a natureza e buscar controlá-la a todo tempo, devemos seguir seu fluxo, otimizar os processos naturais. Essa é a técnica que estamos elaborando. O nosso foco é trazer para a mesa soluções em larga escala que regenerem os sistemas.


  1. O que diferencia esse modelo de agricultura do modelo agrícola orgânico que já existe hoje, por exemplo? 

O potencial de impacto positivo dessa agricultura regenerativa de que estamos falando é muito maior. Na Fazenda da Toca, por exemplo, nós convertemos os nossos pomares convencionais para orgânicos e estabelecemos outras plantações orgânicas de frutíferas. Mas percebemos que esse modelo de monoculturas orgânicas, embora já representasse um grande salto de sustentabilidade, não funcionava muito bem e trazia vários desafios . O primeiro é o alto custo porque os compostos orgânicos são caros. Além disso, observamos que o sistema era menos resiliente e com uma produtividade não muito satisfatória. Do ponto de vista ambiental, percebemos que esse modelo mais minimizava impactos negativos do que causava impacto positivo. Então, em 2012, começamos a conhecer mais a fundo os sistemas consorciados agroflorestais. E aí vimos um potencial muito maior, com um ambiente mais equilibrado e resistente, um enorme ganho em termos de regeneração do solo e da biodiversidade, além da possibilidade de produzir biomassa localmente, o que reduz o custo de adubação. Por isso, aqui na Fazenda nós fizemos a transição dos pomares monoculturais para sistemas agroflorestais. Agora conseguimos sistematizar isso para fazer em escala e, atualmente, já temos uma grande área de produção de frutas em sistemas agroflorestais.


  1. E uma pergunta que muitas pessoas ainda se fazem: é possível alimentar o mundo com orgânicos ou com um modelo de agricultura regenerativa?. 

Sempre gosto quando me fazem essa pergunta porque hoje em dia eu tenho a certeza de que sistemas orgânicos e regenerativos não só podem alimentar o mundo como podem alimentar o mundo muito melhor do que sistemas convencionais. Os sistemas regenerativos, quando são bem desenvolvidos e implementados, nos permitem contar com a ajuda gratuita da natureza 24 horas por dia e sete dias por semana. E essa ajuda que a natureza nos oferece de graça, como a polinização natural, a ciclagem de nutrientes e a atividade microbiológica do solo, faz a produtividade ficar muito boa. E não faltam exemplos hoje de produção orgânica que se iguala ou até supera a convencional. O Rodale Institute fez uma pesquisa de 30 anos comparando a produção convencional e orgânica de milho e soja. A conclusão foi de que a produção orgânica é igual ou melhor que a convencional e, em períodos de muita seca ou muita chuva, os orgânicos disparam na frente porque há mais vida no solo, maior capacidade de retenção de água e maior permeabilidade. E há vários casos concretos. A Native, por exemplo, tem 22 mil hectares de cana-de-açúcar orgânica com produtividade melhor do que a convencional e um nível de resiliência muito maior. Ou seja, é perfeitamente possível alimentar o mundo com uma agricultura que respeita e beneficia a natureza.


  1. Hoje a Toca se consolidou como a maior produtora de ovos orgânicos do país. Ou seja, conseguiu viabilizar a produção orgânica em larga escala. Como foi esse caminho?

Temos muito orgulho dessa nossa operação justamente porque comprova a viabilidade dos orgânicos em larga escala. Hoje, temos um market share entre 40% a 50% de ovos orgânicos no Brasil. Estamos investindo para aumentar a capacidade produtiva e ampliando nossa atuação comercial. O mercado de alimentos orgânicos vem crescendo de forma muito acelerada nos últimos anos e a perspectiva é muito positiva. Em busca de uma alimentação mais saudável, as pessoas têm optado cada vez mais por alimentos orgânicos. E essa é uma tendência muito consolidada. A nossa operação de avicultura de postura começou em 2011 como uma atividade secundária porque o esterco das aves era insumo para nossos pomares. Com o tempo, foi ganhando força e hoje é o carro-chefe da Fazenda da Toca, com os melhores padrões de bem-estar animal em todo o mundo e um resultado financeiro muito positivo.

  1. E além dos ovos, a Fazenda se transformou em um polo de produção orgânica em larga escala…

Exatamente. Hoje nós temos basicamente quatro grandes operações agropecuárias: os ovos orgânicos, sob gestão direta da Fazenda da Toca e que se tornou um case de viabilidade econômica; e pela Rizoma nós gerimos também os sistemas agroflorestais com foco em citricultura, que estão ganhando escala e dando os primeiros frutos, além dos grãos orgânicos, que são base da cadeia agropecuária. Além disso, nós reativamos no ano passado a nossa produção de leite orgânico em um sistema de parceria. Ou seja, consolidamos um modelo de negócios altamente produtivo e eficiente como um núcleo de produção orgânica em larga escala.


  1. Antes de começar o trabalho com produção orgânica, como era a sua relação com a Toca? 

Sempre tive uma relação muito forte com a Toca. Tenho muitas lembranças da minha infância e juventude aqui. Um lugar que sempre gostei de ir é na caverna que dá nome à Fazenda. É por causa dela que a batizamos de Toca. É um lugar muito especial, em meio à mata preservada e cercada por uma natureza exuberante. Estar lá me faz sentir parte da natureza. A vida no campo me faz muito bem pelas relações verdadeiras que criei e pela reconexão com a natureza. Morei muitos anos na Fazenda implementando o nosso negócio de orgânicos. Fui muito feliz morando aqui. Hoje estou em São Paulo, mas vou com muita frequência à Fazenda.


  1. E o que te deu o despertar para essa jornada de regeneração em que você se lançou? 

Foi uma construção, não houve exatamente uma virada de chave. Eu sempre fui atraído por temas como alimentação saudável e sustentabilidade. Mas posso dizer que 2006 foi um momento marcante para mim. Naquele ano nasceu meu primeiro filho. E uma referência que me impactou muito naquele ano foi o documentário Uma Verdade Inconveniente, do ex-vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore. Para mim, assim como para muita gente, o efeito foi de um choque de realidade. Todas aquelas cenas do degelo no Ártico e as catástrofes naturais provocadas pela ação humana, tudo isso me tocou profundamente e me fez pensar que esse não é o mundo que quero deixar para os meus filhos. Esse filme coincidiu com uma transformação pessoal que eu vinha passando e que me fez abrir os olhos e dedicar a minha vida a uma causa que possa reverter as consequências devastadoras que o nosso modelo de civilização vem causando, com a agressão à natureza e a exploração incessante dos recursos naturais.


10. E no ano passado você fundou uma nova empresa, a Rizoma, que tem como objetivo investir em agricultura regenerativa. Pode nos contar um pouco mais sobre esse projeto?

Sim, a Rizoma é um desdobramento da Fazenda da Toca e é hoje o projeto a que eu mais me dedico. Criei essa empresa com o objetivo de escalar os sistemas agroflorestais e a produção de grãos e insumos orgânicos. Hoje a Rizoma opera cerca de 100 hectares de agrofloresta e 360 hectares de grãos na Toca, além de 1000 hectares em uma outra propriedade. Nesses dez anos, aprendemos muito na Toca sobre sistemas agroflorestais e agricultura regenerativa. Foi um período de muito investimento em pesquisa e desenvolvimento para buscar compreender melhor e sistematizar esse jeito de produzir em harmonia com a natureza. E agora, com a Rizoma, esse conhecimento se transformou em um negócio maior e que está crescendo para fomentar sistemas agrícolas que regenerem, sequestrem carbono e gerem vida em vez de destruir vida.

 

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