Sistema Agroflorestal com foco em citricultura na Fazenda da Toca

Sistema Agroflorestal com foco em citricultura na Fazenda da Toca

Essa pergunta do título sempre ronda as conversas sobre os desafios do sistema alimentar global para dar conta de uma população mundial estimada em 9,1 bilhões até 2050.

Já é consenso que a agricultura orgânica é capaz de aliviar algumas das principais pressões ambientais que enfrentamos hoje, como mudanças climáticas e perda de biodiversidade. Do ponto de vista ecológico, não há dúvidas sobre os benefícios que esse sistema pode trazer.

Mas a questão acima geralmente traz implícito um certo ceticismo provocado pelo velho mito da falta de produtividade das lavouras orgânicas em relação à agricultura convencional.

Como esse é um questionamento insistente, fomos atrás de pesquisas, fontes e dados científicos de instituições renomadas para elaborar uma resposta fundamentada. Hoje, podemos dizer que estamos em uma nova era da agricultura em todo o mundo e, sem dúvida, os orgânicos mudaram de patamar e deram um salto de produtividade.

“Nos últimos anos, o número de propriedades rurais e a extensão de terra agricultável dedicada à produção de orgânicos, bem como o volume de investimentos em pesquisa e o tamanho do mercado como um todo vêm crescendo continuamente”, escreveu, ao jornal inglês The Guardian, John Reganold, professor de Ciência do Solo e Agroecologia da Washington University e autor de um dos estudos mais importantes do mundo sobre o tema (continue lendo que logo abaixo citaremos).

De fato, a balança tem pesado cada vez mais em favor dos orgânicos. Em 2017 (dado mais recente), a agricultura orgânica ocupava no mundo 69,8 milhões de hectares, um aumento de 20% em relação a 2016, segundo o IFOAM, organização internacional do setor.

Além da entrada de novos produtores, o domínio da técnica e a melhora nos processos e manejo têm levado a resultados surpreendentes. Um dos maiores estudos comparativos entre sistemas de produção orgânicos e convencionais já feito em todo o mundo aponta para um enorme ganho de eficiência das lavouras orgânicas. Conduzida pelo Rodale Institute, renomada instituição de fomento e pesquisa em orgânicos, sediada nos Estados Unidos, a pesquisa Farming Systems Trial, comparou por quatro décadas o desempenho de grãos orgânicos e convencionais.

E a conclusão foi que, em termos de produtividade, os orgânicos se equiparam ao sistema convencional após cinco anos de transição. E, em períodos de seca, produzem 40% mais. Além disso, esse modelo ainda proporciona aos produtores um lucro de 3 a 6 vezes maior (veja mais por aqui)

Aqui mesmo na Fazenda da Toca já tivemos diversos talhões de fruticultura que chegaram a um patamar de produtividade muito próximos do convencional. “Depois de 10 anos de Fazenda da Toca, eu tenho a certeza de que os orgânicos não só podem alimentar o mundo, mas podem alimentar o mundo muito melhor do que o sistema convencional. Quando temos a natureza como uma aliada, esse fator traz um grande ganho de produtividade e faz as lavouras se desenvolverem muito bem”, afirma Pedro Paulo Diniz, sócio-fundador da Toca e da Rizoma.

Um estudo do Rabobank, instituição bancária multinacional baseada na Holanda, intitulado Don’t Panic, It’s Organic, mostra a tendência de redução de custos e do prêmio pago aos produtores, o que tem atraído cada vez mais investidores para esse mercado, aumentando a escala e dinamizando o setor. Nesse podcast ( AQUI ) você poderá ouvir uma interessante entrevista do autor do estudo.

De fato, o mercado de orgânicos, embora seja ainda um nicho em face do agronegócio como um todo, cresce de forma acelerada. No ano passado, movimentou no mundo US$ 105 bilhões, contra US$ 21 bilhões em 2001. E a projeção é de um crescimento anual sobre essa base de 15% até 2022, segundo dados da Ecovia Intelligence.

Pesquisadores da Washington University liderados por Reganold (citado acima) também fizeram uma revisão de centenas de estudos científicos dos últimos 40 anos comparando a agricultura convencional e orgânica nas quatro metas de sustentabilidade identificadas pela National Academy of Sciences, nos EUA: produtividade, viabilidade econômica, meio ambiente e bem-estar social.

Intitulado “Organic Agriculture in the 21st Century”, o estudo descreve diversos casos onde a produtividade dos orgânicos é maior que no convencional. “Em condições de seca severa, que devem ser cada vez mais frequentes por conta das mudanças climáticas, as propriedades orgânicas têm o potencial de ser mais produtivas porque seu solo tem maior capacidade de reter água”, diz Reganold.

Ou seja, com mais pesquisa, tecnologia e melhores processos, os orgânicos devem ganhar um papel cada vez mais importante na agricultura e, inclusive, ser a chave para alimentar o mundo de forma sustentável em um contexto de aquecimento global.

“Não é mais algo lateral. Não é apenas para um público com uma visão mais ecológica e liberal. Está se tornando uma tendência do milênio. Para mim, o crescimento dos orgânicos é algo realmente marcante comparado a qualquer outro setor da indústria de alimentos”, disse Kathleen Merrigan, professora da Universidade do Arizona e ex-secretária adjunta da Agricultura dos EUA, em uma interessante entrevista que você pode conferir neste link.

Mas, para quem ainda insiste no ceticismo embutido na pergunta do título, devolvemos uma outra questão:

É possível continuar alimentando o mundo com métodos que degeneram os ecossistemas?

Área de manejo agrícola com métodos que deterioram o solo e a biodiversidade

Uma das faces mais devastadoras da crise ambiental global pela qual estamos passando é a deterioração do solo em todo o planeta. Cerca de um terço já está degradado e infértil, como aponta a FAO (agência da ONU para a Alimentação e Agricultura).

“O solo é a base da vida. 95% da nossa comida vem do solo”, diz Maria-Helena Semedo, da FAO.

E a ONU alerta que, no passo em que estamos, todo o solo fértil da Terra pode acabar em 60 anos. A causa da sua degeneração é atribuída à utilização pesada de insumos químicos, desmatamento -o que aumenta a erosão- além do próprio aquecimento global.

A menos que haja uma nova abordagem na utilização dos recursos naturais, a terra agricultável por pessoa em 2050 poderá ser um quarto do nível de 1960, segundo a FAO.

Ou seja, sem solo não é possível produzir. Por isso ganha força no campo o movimento em prol dos orgânicos e da agricultura regenerativa, que restaura a terra degradada. Nesses modelos agrícolas, o solo está no centro da atenção, com uma técnica que o protege, mantendo-o coberto o ano todo, sem arar ou revirar e que consorcia diversas espécies diferentes.

Esse manejo traz o benefício de melhorar e regenerar continuamente o solo por meio da restauração de seu teor de carbono, o que, por sua vez, melhora a saúde, a nutrição e a produtividade das plantas. E assim promove um famoso círculo virtuoso: solo saudável / planta saudável / ser-humano saudável.

E quanto a isso, há uma ótima notícia. De acordo com o Drawdown Project, que apresenta soluções para resolver a crise climática, atualmente há cerca de 43,7 milhões de hectares com adoção de agricultura regenerativa. E, até 2050, essa prática deve alcançar um total de 404,7 milhões de hectares. Felizmente está em curso um consistente movimento de regeneração para fazer face aos desafios ambientais que estamos vivenciando.  

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