De onde vêm as galinhas, como elas evoluíram ao longo tempo, como era seu habitat, como podemos aprender com as espécies selvagens para proporcionar às aves domésticas uma vida mais natural? Perguntas assim nos motivaram a investigar a ancestralidade das galinhas, esse animal curioso e fascinante que é hoje tão presente em nosso dia a dia.

Essa imagem acima representa a espécie ancestral das galinhas doméstica que conhecemos. É o Red Jungle Fowl (ave vermelha da selva, na tradução livre), ou Gallus Gallus, no nome científico.

É originária do sudeste asiático, de selvas habitadas também por animais como elefantes, tigres e leopardos. O estudo de campo intitulado A Field Study of the Red Jungle Fowl in North Central India, de Nicholas E. Collias e Elsie C. Collias, descreve seu habitat como uma floresta diversa, com árvores de grande porte, arbustos, herbáceas e também espaços abertos de clareiras que facilitam a  circulação delas. E a grande densidade dessas aves selvagens na área estudada se explica pela abundância de cupins, outros insetos e frutíferas, fontes de alimentação.

Ao contrário das aves domésticas, o Red Jungle Fowl é um dos pássaros mais ariscos da natureza. Por ser presa fácil no ambiente natural, têm um comportamento extremamente alerta.

Em sua rotina, as galinhas selvagens costumam dormir durante as horas mais quentes do dia empoleiradas nas árvores ou entre bambuzais, mas nos horários mais frescos, do amanhecer até as 9h da manhã ou das 16h até o anoitecer, elas passam ciscando e pastejando.

Seu dia começa com o canto das aves, que expressa as relações territoriais e a relação de dominação entre os machos e o restante do plantel. O canto é entoado de modo geral pelos galos dominantes.

A compreensão do comportamento das aves em estado natural é importante no atual momento histórico da avicultura, uma vez que estamos em uma era de “volta às origens”, como diz o professor Iran José Oliveira da Silva, coordenador do NUPEA (Núcleo de Pesquisa em Ambiência da USP), da ESALQ/USP.

“Estamos passando por uma evolução histórica que agrega a visão do passado com o business. As pessoas estão cada vez mais preocupadas com a qualidade dos alimentos que colocam na boca. Nos primeiros sistemas de produção, as aves eram criadas com muito mais liberdade. Depois, com a era industrial, passaram a ser confinadas. E agora estamos no caminho de volta para um sistema mais natural de forma mais ética em relação aos animais e os alimentos”, disse Iran em conversa conosco.

Por essa razão, ganham relevância as pesquisas que se dedicam a compreender melhor os comportamentos naturais das aves. Ainda segundo A Field Study of the Red Jungle Fowl in North Central India,  as espécies selvagens têm uma alimentação bastante variada composta por mais de 30 espécies de sementes, aranhas, caracóis, minhocas, folhas, pétalas, brotos de bambu, frutas e diversos vegetais.

De acordo com o estudo Domestication effects on the social behaviour of chicken (Os efeitos da domesticação no comportamento social das galinhas), de Beatrix Eklund, o processo de domesticação das aves começou há cerca de 8.000 anos no sul e sudeste da Ásia.

Naturalmente, a domesticação implica em mudanças no comportamento dos animais. As aves domésticas, de acordo com essa pesquisa, toleram mais conviver em ambientes com maior densidade populacional, são mais sociáveis e botam ovos maiores e em quantidade maior.

“As aves selvagens são um modelo importante para entendermos melhor a espécie domesticada. Mas fazer essa reconstituição exata da evolução das galinhas não é uma tarefa fácil porque as informações são muito fragmentadas e, naturalmente, os ambientes em que ainda se encontram em estado natural já foram modificados”, diz o zootecnista Gerson Barreto Mourão, professor de melhoramento da ESALQ/USP e coordenador do ESALQAviz.

Replicar os ambientes naturais com piquetes biodiversos

Conhecer bem os comportamentos naturais das aves é a chave para proporcionar seu bem-estar nos dias de hoje, recriando ambientes mais aprazíveis para elas.

O zootecnista da Fazenda da Toca, Everton Lemos, está à frente da implementação de piquetes agroflorestais em nossos aviários. O objetivo é criar uma ambiência mais próxima do habitat natural.

Seu projeto prevê o plantio de árvores e arbustos, como feijão-guandu, margaridão e gliricídia.

Essas espécies consorciadas promovem inúmeros benefícios. Um deles é trazer mais sombra para o local. Como vimos, circular em ambientes mais frescos e sombreados é uma preferência natural e ancestral das aves, observada no comportamento do Red Jungle Fowl.

Outro benefício é uma fonte mais variada de alimentação, pois as aves nos piquetes agroflorestais podem se alimentar de mais espécies vegetais e insetos atraídos por elas, compondo assim uma alimentação alternativa mais rica.

Além disso, um ambiente biodiverso as estimulam a explorar melhor os piquetes, levando assim uma rotina mais ativa e própria.

E dessa forma, com sensibilidade, estudo e compreensão do que as aves gostam e necessitam, cuidamos delas com todo respeito e carinho em nossos aviários.

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