Neste ano, iniciamos um movimento importante aqui na Fazenda da Toca: começamos a escalar os nossos sistemas agroflorestais, os chamados SAFs. Isso significa que estamos agora partindo para a fase de produção comercial — e não apenas experimental — no modelo de agricultura regenerativa.

Aliás, antes de continuar, esse é um conceito que vale explicar melhor: a agricultura regenerativa tem como premissa produzir alimentos altamente saudáveis e ao mesmo tempo regenerar o solo e a biodiversidade. Tudo isso apenas com uma intervenção humana baseada na inteligência e na dinâmica da natureza.

Como resume Pedro Paulo Diniz, fundador e CEO da Fazenda da Toca:

Em vez de lutar contra a natureza, é preciso seguir seu fluxo, entender a sua dinâmica. Assim, a agricultura pode ser uma grande oportunidade para regenerar a vida em nosso planeta.”

Foi com esse entendimento que demos início, em 2012, à implementação dos SAFs, que são baseados em um conjunto de princípios e técnicas de plantio que mimetizam o ambiente de uma floresta.

Nos SAFs, as espécies florestais são plantadas em consórcio com culturas agrícolas. Periodicamente, as espécies do sistema são podadas e as podas permanecem dentro do sistema em forma de matéria orgânica para a cobertura superficial do solo. Essa biomassa gera inúmeros benefícios, pois evita a erosão, retém a umidade no local, nutre o solo e favorece o desenvolvimento de micro-organismos benéficos.

Dessa forma, cria-se um ambiente autossuficiente, diminuindo a necessidade de insumos externos e, consequentemente, reduzindo os custos de produção.

Temos visto muitas experiências bem-sucedidas em agrofloresta no Brasil e no mundo. E agora, após muita observação, tempo de pesquisa e estudo, estamos colocando em prática o conhecimento adquirido com o objetivo de desenvolver SAFs em larga escala.

Essa é a experiência que gostaríamos de dividir com você.

Uma área de 30 hectares de agrofloresta

Na Fazenda, desenvolvemos sistemas agroflorestais com foco em citricultura, os chamados SAFs Citros. Nos últimos anos, fizemos muitos experimentos em talhões menores para testar diferentes consórcios de plantas, além de fatores como nível de sombreamento, geração de biomassa, tipos de poda e custos de manejo até chegar em uma modelagem que consideramos adequada para ganhar escala.

Para isso, temos desenvolvido diversas metodologias e indicadores com o objetivo de conferir um embasamento científico e não apenas empírico ao nosso projeto.

“Começamos então a sistematizar e criar desenhos de agrofloresta, balizados também pela modelagem econômica, que possam proporcionar impacto positivo para a área do ponto de vista ambiental e ao mesmo tempo garantir que gerem renda para as pessoas que estão trabalhando nela”, afirma Olívia Gomes, coordenadora de Cursos, Eventos e Vivências da Fazenda da Toca e instrutora do Curso Intensivo em Agrofloresta, que acontecerá em julho.

Com esses desenhos mais maduros, foi a hora de começar a escalar. Esse talhão da foto, de 30 hectares, é um primeiro módulo, que será replicado em outras áreas.

Aqui temos várias espécies que criam um ambiente biodiverso: árvores para poda, como Ingá, Eritrina e Eucalipto, que têm a função de prover matéria orgânica para o solo; madeiráveis, como Cedro, Mogno e Ipê Felpudo, que produzem madeira de alta qualidade; culturas anuais, como Mandioca e Inhame; baneiras, que ocupam as bordas e servem como quebra-vento e controle de pragas, além do Limão Tahiti, o foco principal desse sistema.

Essa área terminou de ser plantada em abril e quem nos ajuda a contar um pouco dessa história é Fabricio Martins, gerente agrícola que acompanha de perto cada processo.

O passo a passo

Tudo começou com o plantio de adubação verde, como Mombaça e Feijão-Guandu, que são espécies boas para a cobertura superficial do solo porque fixam nitrogênio, são ricas em nutrientes e melhoram a qualidade da terra.

“Essa é a primeira fase, tínhamos que garantir uma grande quantidade de adubo verde, o que é determinante para o êxito do sistema. Depois de plantar, essa área ficou em pousio por um período até ser roçada para que a biomassa cobrisse o solo”, explica Martins.

E há mais ou menos seis meses demos início ao plantio das arbóreas, como o Ipê Felpudo. Depois, foi a vez das raízes, a mandioca e o inhame. “Que aliás estão nos surpreendendo e saindo muito bem”, ressalta o gerente agrícola. Sobre elas, vale dizer que são consideradas plantas ‘criadeiras’ porque ajudam a criar um microclima favorável ao crescimento das árvores, tanto frutíferas, como madeireiras, plantadas posteriormente.

Por fim vieram as mudas de Limão Tahiti, o foco principal do nosso SAF.

Esse desenho tem inúmeros benefícios, ambientais e econômicos. Para começar, possibilita uma impressionante regeneração do solo, que em poucos anos torna-se muito mais fértil. Em segundo lugar, diminui sensivelmente a necessidade de aporte externo de adubos e compostos orgânicos, uma vez que a biomassa é produzida localmente.

E outra grande vantagem é que esse sistema gera renda constantemente, durante entressafras e nos períodos de maturação das culturas com ciclo mais longo.

Ao fim do primeiro ano, por exemplo, as raízes já podem ser colhidas, tornando-se a primeira fonte de receita. A banana também produz seus cachos geralmente entre 12 e 14 meses. Depois vem a vez do limão, que começa a frutificar entre o terceiro e o quarto ano. E assim vai até o corte do Mogno e do Cedro no 18º ano, quando o sistema é todo renovado.

Mas, claro, tudo isso vem acompanhando de uma série de desafios.

O que torna os sistemas agroflorestais especialmente interessantes – e desafiadores – é que não há tecnologia de prateleira, ou seja, há muito a ser desenvolvido.

Quando se fala em processos de mecanização, fundamentais para escalar o modelo, por exemplo, existe ainda uma grande carência. Atualmente, há no mercado muitas máquinas voltadas para a agricultura ou para o manejo florestal. Mas para o manejo agroflorestal ainda não dispomos de maquinário apropriado.

“Por isso, investimos muito em inovação para desenvolver e adaptar os equipamentos de que precisamos”, conclui Martins.

Mas quando o desafio é grande, a motivação é ainda maior e só faz aumentar o nosso desejo de ver as agroflorestas se multiplicarem.

Venha conhecer de perto

Compartilhar conhecimento e aprendizados é uma das nossas missões aqui na Fazenda. Por isso, criamos uma área especial chamada Toca Experiências, que promove uma série de cursos, eventos e vivências na Fazenda.

Se você gostou do tema desse texto e tem interesse em se aprofundar nesse universo fascinante das agroflorestas, junte-se a nós no próximo IV Curso Intensivo em Agrofloresta, que acontece de 11 a 22 de julho. Nele, iremos aprofundar todos esses conceitos e muito mais!

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